Grande sertão: veredas


Título original: Grande sertão: veredas
Autor(a): João Guimarães Rosa
Ano da edição: 2006
Editora: Nova Fronteira
Gênero: Romance
Catalogação: Romance Brasileiro
Sinopse: "Grande sertão: veredas" é um romance genial e, acima de tudo, uma história surpreendente de aventura, amor, mistério, traição, conflito, amizade, dor, paixão e superação. Escrito por João Guimarães Rosa, um dos maiores autores brasileiros de todos os tempos, "Grande sertão: veredas" já foi estudado dentro e fora do Brasil, mas antes de conhecer toda a habilidade estilística desse autor de rara formação linguística e filosófica, é preciso mergulhar nessa história e se deixar encantar por ela, saboreá-la até a última página. Então pegue este livro e conheça Riobaldo Tatarana, Reinaldo Diadorim, Medeiro Vaz, Zé Bebelo e Hermógenes. Experimente ler alguns trechos em voz alta para descobrir os sons e ritmos de palavras que parecem compor um outro idioma.
TRECHOS EXTRAÍDOS NA LEITURA DO LIVRO 
“Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade”. 
“O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte”. 
“Viver é negócio muito perigoso...”. 
“O diabo vige dentro do homem, os crespos do homem - ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum!”. 
“Ah, a gente, na velhice, carece de ter sua aragem de descanso”. 
“Tem gente, neste aborrecido mundo, que matam só para ver alguém fazer careta...”. 
“Se a gente torna a encarnar renovado, eu cismo até que inimigo de morte pode vir como filho do inimigo”. 
“Passarinho que se debruça – o vôo já está pronto!”. 
“Eu sou é eu mesmo. Diverjo de todo o mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”. 
“Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias...”. 
“De sorte que carece de se escolher: ou a gente se tece de viver no safado comum, ou cuida só de religião só”. 
“Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar”. 
“Deus é paciência. O contrário, é o diabo”. 
“Sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal...”. 
“No mato, o medo da gente se sai ao inteiro, um medo propositado”. 
“Melhor, para a idéia se bem abrir, é viajando em trem-de-ferro. Pudesse, vivia para cima e para baixo, dentro dele”. 
“Dor do corpo e dor da idéia marcam forte, tão forte como o todo amor e raiva de ódio”. 
“Razão da crença mesma que tem - que, por todo o mal, que se faz, um dia se repaga, o exato”. 
“A gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio - essa é que é a regra do rei!”. 
“O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam”. 
“O diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro - dá gosto! A força dele, quando quer - moço! - me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho - assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza”. 
“Se sonha; já se fez...”. 
“Se tem alma, e tem, ela é de Deus estabelecida, nem que a pessoa queira ou não queira. Não é vendível”. 
“Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar”. 
“Já tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de idéia e saudade de coração...”. 
“Ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor. Coração da gente - o escuro, escuros”. 
“O que é ruim, dentro da gente, a gente perverte sempre por arredar mais de si. Para isso é que o muito se fala?”. 
“Toda saudade é uma espécie de velhice”. 
“O amor, já de si, é algum arrependimento”. 
“Deus é definitivamente; o demo é o contrário Dele...”. 
“Para trás, não há paz”. 
“Para a gente se transformar em ruim ou em valentão, ah basta se olhar um minutinho no espelho - caprichando de fazer cara de valentia; ou cara de ruindade!”. 
“Aquilo mesmo que a gente receia de fazer quando Deus manda, depois quando o diabo pede se perfaz”. 
“Dia da gente desexistir é um certo decreto”. 
“Confiança não se tira das coisas feitas ou perfeitas: ela rodeia é o quente da pessoa” 
“Deus come escondido, e o diabo sai por toda parte lambendo o prato...”. 
“A colheita é comum, mas o capinar é sozinho...”. 
“Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar - é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada - erra rumo”. 
“O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver - a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo”. 
“Como é que se pode gostar do verdadeiro no falso? Amizade com ilusão de desilusão. Vida muito esponjosa”. 
“O amor? Pássaro que põe ovos de ferro”. 
“O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. 
“Despedir dá febre”. 
“Viver é um descuido prosseguido”. 
“Pobre tem de ter um triste amor à honestidade. São árvores que pegam poeira”. 
“Cavalo que ama o dono, até respira do mesmo jeito”. 
“O sertão é do tamanho do mundo”. 
“Perdoar é sempre o justo e certo...”. 
“Ser chefe - por fora um pouquinho amarga; mas, por dentro, é rosinhas flores”. 
“Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto. As pessoas, e as coisas, não são de verdade! E de que é que, a miúde, a gente adverte incertas saudades? Será que, nós todos, as nossas almas já vendemos?”. 
“No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso...”. 
“Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!”. 
“Melhor que tudo é se cuidar miudamente trabalhos de paz em tempo de guerra”. 
“Vingar, é lamber, frio, o que outro cozinhou quente demais” 
“Qual é o caminho certo da gente? Nem para a frente nem para trás: só para cima”. 
“Viver...viver é etcétera...”. 
“Para um trabalho que se quer, sempre a ferramenta se tem”. 
“O mal ou o bem, estão é em quem faz; não é no efeito que dão”. 
“A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância”. 
“Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data”. 
“Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!” 
“Muita coisa importante falta nome”. 
“Sertão é o penal, criminal. Sertão é onde homem tem de ter a dura nuca e mão quadrada. Mas, onde é bobice a qualquer resposta, é aí que a pergunta se pergunta”. 
“Mesmo pessoa amiga e cortês, virando patrão da gente, vira mais rude e reprovante”. 
“O que demasia na gente é a força feia do sofrimento, própria, não é a qualidade do sofrente”. 
“Segredos frescos contados não são para todos”. 
“Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois”. 
“Sorte? O que Deus sabe, Deus sabe”. 
“A luzinha dos santos-arrependidos se acende é no escuro”. 
“Deus vem, guia a gente por uma légua, depois larga. Então, tudo resta pior do que era antes. Esta vida é de cabeça-para-baixo, ninguém pode medir suas perdas e colheitas”. 
“Pessoa limpa, pensa limpo”. 
“Pensar mal é fácil, porque esta vida é embrejada. A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar. A senvergonhice reina, tão leve e leve pertencidamente, que por primeiro não se crê no sincero sem maldade”. 
“A assoprada na vaidade é a alegria que dá chama mais depressa e mais a ar”. 
“Tem diversas invenções de medo. Pior de todas é essa: que tonteia primeiro, depois esvazia. Medo que já principia com um grande cansaço. (...) Medo do que pode haver sempre e ainda não há”. 
“Sozinho sou, sendo, de sozinho careço, sempre nas estreitas horas - isso procuro”. 
“Desespero quieto às vezes é o melhor remédio que há. Que alarga o mundo e põe a criatura solta. Medo agarra a gente é pelo enraizado”. 
“Até para a gente se lembrar de Deus, carece de se ter algum costume”. 
“Aos pouquinhos, é que a gente abre os olhos”. 
“A vida da gente faz sete voltas - se diz. A vida nem é da gente...”. 
“Amizade nossa ele não queria acontecida simples, no comum, sem encalço. A amizade dele, ele me dava. E amizade dada é amor”. 
“Toda alegria, no mesmo do momento, abre saudade. Até aquela-alegria sem licença, nascida esbarrada. Passarinho cai de voar, mas bate suas asinhas no chão”. 
“Todo amor não é uma espécie de comparação?”. 
“Artes que morte e amor têm paragens demarcadas. No escuro”. 
“Ódio pousa na gente, por umas criaturas”. 
“Ser ruim, sempre, às vezes é custoso, carece de perversos exercícios de experiência”. 
“O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto; dificultoso, mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até no rabo da palavra”. 
“Viver perto das pessoas é sempre dificultoso, na face dos olhos”. 
“Toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada. Palavra pegante, dada ou guardada, que vai rompendo rumo”. 
“Aviso. Eu acho que, quase toda a vez que ele vem, não é para se evitar o castigo, mas só para se ter consolo legal, depois que o castigo passou e veio”. 
“Amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou - amigo - é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por que é que é”. 
“A natureza da gente é muito segundas-e-sábados. Tem dia e tem noite, versáveis, em amizade de amor”. 
“Quase tudo o que a gente faz ou deixa de fazer, não é, no fim, traição? Há-de-o, a alguém, a alguma coisa”. 
“De medo, coração bate solto no peito; mas de alegria ele bate inteiro e duro, que até dói, rompe para diante na parede". 
“Um ainda não é um: quando ainda faz parte com todos”. 
“O espírito da gente é cavalo que escolhe estrada: quando ruma para tristeza e morte, vai não vendo o que é bonito e bom”. 
“Quando gosto, é sem razão descoberta, quando desgosto, também. Ninguém, com dádivas e gabos, não me transforma". 
“Às vezes, é até com ajuda do ódio que se tem a uma pessoa que o amor tido a outra aumenta mais forte. Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe”. 
“Não convém a gente levantar escândalo de começo, só aos poucos é que o escuro é claro”. 
“Medo, não, mas perdi a vontade de ter coragem”. 
“Quem que diz que na vida tudo se escolhe? O que castiga, cumpre também”. 
“Memória que Deus me deu não foi para palavrear avesso nele, com feitas ofensas...”. 
“A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado...”. 
“Deus a gente respeita, do demônio se esconjura e aparta...”. 
“O prazer muito vira medo, o medo vai vira ódio, o ódio vira esses desesperos? - desespero é bom que vire a maior tristeza, constante então para o um amor - quanta saudade...; aí, outra esperança já vem... Mas, a brasinha de tudo, é só o mesmo carvão só”. 
“A gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é”. 
“A vida da gente vai em erros, como um relato sem pés nem cabeça, por falta de sisudez e alegria. Vida devia de ser como na sala do teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel, desempenho”. 
“A notícia, a gente tem de ir por ela, mesmo entrar no mundo para se buscar!”. 
“Tudo que é estúrdio comparece em tempo de guerra...”. 
“Velho é, o que já está de si desencaminhado. O velho valeu enquanto foi novo...”. 
“Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado. Eh, bê. Mas, para o escriturado da vida, o julgar não se dispensa; carece? (...) Lei é lei? Loas! Quem julga, já morreu. Viver é muito perigoso, mesmo”. 
“Quem vai em caça, perde o que não acha...”. 
“Ah, mas, no centro do sertão, o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juízo!”. 
“Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera”. 
“Tem trechos em que a vida amolece a gente, tanto, que até um referver de mau desejo, no meio da quebreira, serve como beneficio”. 
“Para ódio e amor que dói, amanhã não é consolo”. 
“Liberdade - aposto - ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões. Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina: o beco para a liberdade se fazer”. 
“O demônio não existe real. Deus é que deixa se afinar à vontade o instrumento, até que chegue a hora de se dançar. Travessia, Deus no meio”. 
“Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”. 
“A cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total”. 
“Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor”. 
“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. 
“Tudo o que já foi, é o começo do que vai vir, toda a hora a gente está num cômpito. 
“Viver é muito perigoso; e não é não”. 
“Um sentir é o do sentente, mas outro é o do sentidor”. 
“Medo tenho é porém por todos. É preciso de Deus existir a gente, mais; e do diabo divertir a gente com sua dele nenhuma existência. O que há é uma certa coisa - uma só, diversa para cada um - que Deus está esperando que esse faça”. 
“Neste mundo tem maus e bons - todo grau de pessoa”. 
“Para o prazer e para ser feliz, é que é preciso a gente saber tudo, formar alma, na consciência; para penar, não se carece”. 
“Todo caminho da gente é resvaloso. Mas; também, cair não prejudica demais - a gente levanta, a gente sobe, a gente volta! Deus resvala?”. 
“O sertão tem medo de tudo. Mas eu hoje em dia acho que Deus é alegria e coragem - que Ele é bondade adiante”. 
“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito - por coragem”. 
“O cristão não se concerta pela má vida levável, mas sim porém sucinto pela boa morte - ao que a morte é o sobrevir de Deus, entornadamente”. 
“Ah, o que eu não entendo, isso é que é capaz de me matar...”. 
“A gente sabe mais, de um homem, é o que ele esconde”. 
“Acho que Deus não quer consertar nada a não ser pelo completo contrato: Deus é uma plantação. A gente - e as areias”. 
“Que Deus existe, sim, devagarinho, depressa. Ele existe - mas quase só por intermédio da ação das pessoas: de bons e maus. Coisas imensas no mundo. O grande-sertão é a forte arma. Deus é um gatilho?”. 
“Os fatos passados obedecem à gente; os em vir, também. Só o poder do presente é que é furiável? Não. Esse obedece igual - e é o que é”. 
“É no junto do que sabe bem, que a gente aprende o melhor...”. 
“A vantagem do valente é o silêncio do rumor...”. 
“O ódio - é a gente se lembrar do que não deve-de; amor é a gente querendo achar o que é da gente”. 
“A guerra era o constante mexer do sertão, e como com o vento da seca é que as árvores se entortam mais. Mas, pensar na pessoa que se ama, é como querer ficar à beira d’água, esperando que o riacho, alguma hora, pousoso esbarre de correr”. 
“Mente pouco, quem a verdade toda diz”. 
“O que o medo é: um produzido dentro da gente, um depositado; e que às horas se mexe, sacoleja, a gente pensa que é por causas: por isto ou por aquilo, coisas que só estão é fornecendo espelho. A vida é para esse sarro de medo se destruir”. 
“A gente só sabe bem aquilo que não entende”. 
“Convém nunca a gente entrar no meio de pessoas muito diferentes da gente. Mesmo que maldade própria não tenham, eles estão com vida cerrada no costume de si”. 
“O que assenta justo é cada um fugir do que bem não se pertence. Parar o bom longe do ruim, o são longe do doente, o vivo longe do morto, o frio longe do quente, o rico longe do pobre”. 
“O medo da confusão das coisas, no mover desses futuros, que tudo é desordem. E, enquanto houver no mundo um vivente medroso, um menino tremor, todos perigam - o contagioso. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros, ninguém tenha. O maior direito que é meu - o que quero e sobrequero: é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim”! 
“Vida é noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei duma idéia falsa. Cada dia é um dia”. 
“No estado do viver, as coisas vão enqueridas com muita astúcia: um dia é todo para a esperança, o seguinte para a desconsolação”. 
“Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas”. 
“Somente com a alegria é que a gente realiza bem - mesmo até as tristes ações”. 
“Não ter vergonha como homem, é fácil; dificultoso e bom era poder não se ter vergonha feito os bichos animais”. 
“Querer o certo, do incerto, coisa que significava. Parente não é o escolhido - é o demarcado. Mas, por cativa em seu destinozinho de chão, é que árvore abre tantos braços”. 
“Primeira coisa, que um para ser alto nesta vida tem de aprender, é topar firme as invejas dos outros restantes...”. 
“Sorte é isto. Merecer e ter...”. 
“O amor de alguém, à gente, muito forte, espanta e rebate, como coisa sempre inesperada”. 
“O pássaro que se separa de outro, vai voando adeus o tempo todo”. 
“Se teme por amor; mas que, por amor, também, é que a coragem se faz”. 
“Pouco se vive, e muito se vê...”. 
“Um outro pode ser a gente; mas a gente não pode ser um outro, nem convém... “. 
“A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação - porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada”. 
“A opinião das outras pessoas vai se escorrendo delas, sorrateira, e se mescla aos tantos, mesmo sem a gente saber, com a maneira da idéia da gente!”. 
“O enjôo da paz será também algum outro medo da guerra...”. 
“Só o medo da guerra é que vira valentia...”. 
“Só quando se tem rio fundo, ou cava de buraco, é que a gente por riba põe ponte...”. 
“Quieto; muito quieto é que a gente chama o amor: como em quieto as coisas chamam a gente”. 
“Um chefe carece de saber é aquilo que ele não pergunta”. 
“Tem muitas épocas de amor. Amor em perto, às vezes sossega, em muitos adiamentos - ao homem da branca barba”. 
“Ah, conselho de amigo só merece por ser leve, feito aragem de tardinha palmeando em lume-d’água. O amor dá as costas a toda reprovação”. 
“Amizade de amor surpreende uns sinais da alma da gente, a qual é arraial escondido por detrás de sete serras?”. 
“O perfume do nome da Virgem perdura muito; às vezes dá saldos para uma vida inteira...”. 
“O medo mostrado chama castigo de ira; e só para isso é que serve”. 
“Existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver - e essa pauta cada um tem - mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é”. 
“Para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas, fora dessa conseqüência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é o errado”. 
“Aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para cada representador – sua parte, que antes já foi inventada, num papel...”. 
“O amor só mente para dizer maior verdade”. 
“O que não existe de se ver, tem força completa demais, em certas ocasiões”. 
“Chefe não era para arrecadar vantagens, mas para emendar o defeituoso”. 
“O sertão não tem janelas nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa...”. 
“Um lugar conhece outro é por calúnias e falsos levantados; as pessoas também, nesta vida”. 
“Coragem - é o que o coração bate; se não, bate falso. Travessia - do sertão - a toda travessia”. 
A vida é muito discordada. Tem partes. Tem artes. (...)Tem as caras todas do Cão, e as vertentes do viver”. 
“Ser chefe, às vezes é isso: que se tem de carregar cobras na sacola, sem concessão de se matar...”. 
“Sertão não é malino nem caridoso, mano oh mano!: - ... ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo”. 
“O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente...”. 
“Dói sempre na gente, alguma vez, todo amor achável, que algum dia se desprezou...”. 
“Gostar exato das pessoas, a gente só gosta, mesmo, puro, é sem se conhecer demais socialmente...”. 
“Manter firme uma opinião, na vontade do homem, em mundo transviável tão grande, é dificultoso”. 
“Não creia na quietação do ar. Porque o sertão se sabe só por alto. Mas, ou ele ajuda, com enorme poder, ou é traiçoeiro muito desastroso”. 
“Notícia que se vai ter amanhã, hoje mesmo ela já se serve...”. 
“Lei é asada é para as estrelas. Quem sabe, tudo o que já está escrito tem constante reforma - mas que a gente não sabe em que rumo está - em bem ou mal, todo-o-tempo reformando?”. 
“Ingratidão é o defeito que a gente menos reconhece em si?”. 
“A gente chega, é onde o inimigo também quer”. 
“E amor é isso: o que bemquer e mal faz?”. 
“Quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade...”. 
“Só comandei. Comandei o mundo, que desmanchando todo estavam. Que comandar é só assim: ficar quieto e ter mais coragem”. 
“Raiva tampa o espaço do medo, assim como do medo a raiva vem”. 
“Viver - não é? - é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo”. 
“Tu não acha que todo o mundo é doido? Que um só deixa de doido ser é em horas de sentir a completa coragem ou o amor? Ou em horas em que consegue rezar?”. 
“A vida da gente nunca tem termo real”. 
“Comprar ou vender, às vezes, são as ações que são as quase iguais...”. 
“O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia”.
Texto e Imagem: Google 
📚 Biblioteca Pessoal

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